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 Capítulo I (O Tinteiro)

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Leyryel
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MensagemAssunto: Capítulo I (O Tinteiro)   Dom Ago 26, 2018 12:54 am

Capítulo I
(O Tinteiro)

As grandes almas devem carregar consigo apenas o que é de mais importante para a natureza humana. Pois os excessos pesam, e dificultam ainda mais os tortuosos caminhos da vida! Uma grande alma deve preencher-se de conhecimento, e através dele, buscar as respostas para uma existência plena. O amor próprio e o amor para com os outros também são essenciais, e deles, não se deve abster. Essas eram algumas, de muitas outras, bagagens que pautavam toda a vida dos monges das terras do leste.

Por debaixo de uma cabaça pequena e calva, toda essa filosofia fervia quente como o sol. E não havia nada que Peter pudesse deixar escapar. E não era pra menos, pois cada livro da cidade, pelo menos os mais importantes, havia sido transcrito pelos seus dedos pequenos e calejados. E apesar de não ser único com aquela tarefa no monastério, tomara para si com tanto amor aquele trabalho, que raro eram os casos dos livros que não dispunham de sua assinatura.    

Porém, há uma guerra que é frequentemente travada entre mente e corpo, que de alguma maneira, buscava pôr essa filosofia em xeque. Nas terras de fogo era bem pior! Pois por lá os homens alimentavam-se de ouro e sangue. Assim era dito, aos sussurros, nos grandes corredores de (nome do monastério). Era uma guerra particular, que cada pessoa travava ao despertar. Peter conhecia-a a sua maneira, quando tarde da noite, o estômago tremia feito trovão graças à fome! Ou então, os ossos que pareciam ranger, iguais as árvores do “Mar de Colinas” pela falta de uma cama confortável. O monge, no entanto, brandia um posto de arauto nessa sua guerra particular. Já que por anos abdicou do conforto para encarar longas e desconfortáveis viagens. E de muitas delas, se orgulhava! Pois dizia a si mesmo, que nem mesmo os príncipes do leste suportariam os anos naquelas condições. “É simples quando se é jovem, quando se dorme em seda e é levado por garanhões mais fortes que ursos”.

Contrário aos jovens cavaleiros de que tanto se queixava, o monge possuía na postura, o reflexo de um passado tortuoso. Seu pescoço era curvado, e as orelhas batiam quase na altura dos ombros. As pernas tortas caminhavam rápidas, no entanto, em passos desgovernados. E apesar de jovem, já apresentava alguns sinais de calvície, e os olhos, pequenos e negros como a noite, sempre apertavam quando precisava ler algo. Por sorte, suas condições físicas eram bem compensadas pelo seu bom intelecto.

Inteligente, dedicado... Foram as palavras que ouviu do reverendo Wagner antes de abandonar sua sala, para tomar parte, com orgulho, da tripulação do “Serpente”. Seria uma viagem breve, porém, não menos importante. E naquela mesma noite, preparou meia dúzia de livros. E dentre eles, cabe destacar dois: o primeiro, um pequeno volume do livro sagrado, um em meio aos vários que a vasta biblioteca do leste possuía. Um grande companheiro para as noites de aflição. E, por conseguinte, um diário, simples, com o qual fazia suas inúmeras anotações, confissões, e, frequentemente, rascunhava pontos importantes de suas pesquisas.

Algumas noites depois, poderia se sentir privilegiado. Pois não havia necessidade de montar num pequeno animal, nem se contorcer em uma cabine cheia de pulgas, como de costume. Já que embarcara numa das maiores e confortáveis embarcações já vistas nas terras do leste.
Já bem tarde da noite, ao caminhar, encontrou um banco, espaçoso, de madeira negra, bem polida. Fazia bem ao corpo e à alma. Pois além do espaço para esticar as pernas, era bem iluminado, com tochas que cintilavam como sóis em dias de verão.  
Decidiu que tomaria aquele local como escritório, e terminaria suas anotações por ali mesmo. O tempo passou tão rápido, que se não fosse o corpo, numa tentativa de avisá-lo de uma posição que a muito não mudar, teria dormido ali mesmo. O bocejo, por sua vez, ofuscou a vista, quando despertou nos olhos, lágrimas de cansaço. E a cabeça então pendeu para trás, mas logo, retornou a sua posição inicial de pescoço curvo, de quem estava examinando algo.        
“Havia trevas... e um abismo de águas” — Foi exatamente nesse trecho que pousou os olhos com a mesma atenção de uma águia. Buscando na memória o exato momento em que transcrevera aquelas palavras. Talvez o cansaço tivesse lhe obscurecido a mente, pois deixou que a leitura de outrora se confundisse com o trabalho. E em meio ao relatório de sua viagem, as palavras “abismo”, “trevas” e “águas” haviam sido tingidas com letras grandes e escuras, deixando as demais, pequenas e oprimidas.        
Tais palavras fizeram despertar no monge, uma sucinta curiosidade em seu entorno. E notou que o navio parecia deslizar como se estivesse sendo carregado pelos deuses, em águas que se confundiam com o céu em trevas. E logo pensou na palavra “abismo”, que fazia muito mais sentido naquele instante.
Durante toda a viagem, nenhum pensamento negativo havia lhe tomado o espírito, ate aquele momento. Tentou então, ordena-los, de forma a criar boas imagens na mente. Um exercício mental que frequentemente fazia quando algo não lhe corria bem. E por alguns instantes, uma voz pessimista parecia querer gritar, e bagunçar toda sua paz interior. Paz que estaria bem mais consolidada se a viagem não estivesse com dias de atraso. Mas ainda sim, imaginava mil coisas! O mar abrindo como a boca de uma baleia faminta, engolindo o barco por completo. Uma névoa espessa que não permitira ver nem mesmo o próprio nariz. Ou até mesmo uma tempestade furiosa! Tudo estava em silêncio. E havia uma crença de que quando o silêncio se aproxima, há o prelúdio da desgraça. Pois naquele exato momento, a morte caminha, e as almas se calam.        
Naquele local, o mar era deus!
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